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TERRA MAGAZINE

Paola Ugaz
De Lima (Peru)

A primeira exumação de mais de cem desaparecidos em quatro fossas nos Andes do Peru desnuda a selvagem resposta do Exército ante a loucura do Sendero Luminoso: 49% das vítimas eram crianças.

Na apresentação do relatório final – de nove volumes de extensão – que revelou que foram cerca de 70 mil as vítimas da guerra interna ocorrida entre 1980 e 2000, o presidente da Comissão da Verdade e da Reconciliação do Peru (CVR), Salomón Lerner, assinalou que estava expondo um duplo escândalo: “O do assassinato, do desaparecimento e da tortura em massa, e o da indolência, da inaptidão e da indiferença de quem pôde impedir esta catástrofe humanitária mas não o fez”.

“De cada quatro vítimas da violência, três eram camponeses ou camponesas cuja língua materna era o quíchua – um amplo setor da população historicamente ignorado (às vezes até depreciado) pelo Estado e pela sociedade urbana, exatamente aquela que desfruta dos benefícios da comunidade política”, afirma o texto.

“O insulto racial, a agressão verbal a pessoas sem posses, ressoa como abominável estribilho que precede ao golpe, ao seqüestro do filho, ao disparo à queima-roupa… muito se escreveu sobre a discriminação cultural, social e econômica persistente na sociedade peruana. Pouco fizeram as autoridades do Estado ou os cidadãos para combater semelhante estigma de nossa comunidade, enfermidade que acarreta danos tangíveis e imperecíveis”, afirmou Lerner, em agosto de 2003.

O povoado de Putis – encravado em um riacho a 4 mil metros de altura, e cinco horas distante de Ayacucho – entrou para a história do Peru de modo sangrento em 13 de dezembro de 1984, quando um pelotão do Exército juntou um grupo de moradores e, depois de obrigá-los a cavar uma fossa, violaram as mulheres e abriram fogo. Naquele dia, morreram 147 pessoas.

O delito? Supostamente serem parte do grupo terrorista Sendero Luminoso.

A chacina foi a reposta das Forças Armadas à guerra que sacudiu o Peru entre 1980 e 2000, declarada ao Estado peruano pelos grupos terroristas Sendero Luminoso e Movimiento Revolucionario Túpac Amaru (MRTA).

Depois do massacre, os moradores de Putis que se dedicavam à pecuária e tinham como língua materna o quíchua se viram forçados a fugir para a selva. Agora, mais de duas décadas depois, regressaram para ajudar ativamente nos trabalhos de exumação que acontecem a pedido da Promotoria, conduzidos pela Equipe Peruana de Antropologia Forense (EPAF), dirigida pelo peruano José Pablo Baraybar.

As exumações que começaram em maio revelaram que 49% das vítimas são crianças mortas pelo Exército – entre eles um feto de oito meses que apresenta uma bala no crânio -, que faleceram depois de receber uma chuva de balas dos militares, que inclusive os balearam dentro da vala comum, como revelam as marcas de bala na terra abaixo dos cadáveres.

Sobre o massacre de Putis, o ex-presidente da CVR Salomón Lerner, filósofo por profissão, disse a Terra Magazine: “Isso revela a decomposição moral, uma crise que afetava o Peru na época e que, com o tempo, ia confirmar o que dissemos. Há 3,5 mil fossas a serem exumadas, e por isso pedimos um plano nacional de exumações. Como continuar assim? No mundo andino, enquanto não aparece o corpo do falecido, se considera que a alma segue vagando, que não descansa. O que se encontra são famílias traumatizadas; é uma desgraça, é preciso acelerar o processo como uma maneira de respeito elementar. E não nos enganemos, eles estão mortos, não desaparecidos”.

“Putis nos comove porque é mais que prova do que revelamos na Comissão da Verdade. É uma chamada de atenção para que não nos enganemos sobre o número de mortos e da barbárie que revelamos há cinco anos – há crianças, mulheres. Só vivendo na Segunda Guerra Mundial, em Sarajevo e aqui nos damos conta da magnitude do massacre, 24 anos depois”, concluiu.

De sua parte, em entrevista para Terra Magazine, o chefe da Equipe de Antropologia Forense, José Pablo Baraybar, falou da horripilante experiência de exumar um dos mais sangrentos massacres cometidos pelo exército no Peru.

Terra Magazine – Por que é importante saber o que aconteceu em Putis?

José Pablo Baraybar – Putis é um caso cruel, horroroso, espantoso, mas não é diferente aos tantos milhares de casos que ainda estão enterrados nas 3,5 mil valas comuns que existem no país. O mais importante de Putis é que faz um chamado de atenção ao mundo ao iniciar um processo de desenterro que não deve ser parado. De alguma maneira, Putis serviu para abrir um pouco os olhos.

Graças ao relatório da Comissão da Verdade contávamos com muita informação sobre o que aconteceu; tudo isso ajudou a criar a imagem de um Peru que não conhecíamos, um pouco da terra de Jauja. Não há nada, apenas um rio miserável que não tem nem trutas. Basicamente é nos darmos conta de que há um Peru que segue invisível até agora, e que estava ali. Há muitos Putis mais, só raspamos a superfície.

Os senhores contam com algum instrumento que meça a selvageria praticada contra os seres humanos em cada exumação que realizam?

Não existe nada que possa medir tal grau de eliminação do outro; esse é um elemento de selvageria que não encontramos nem mesmo entre os animais. Putis é um caso no qual fica manifesta a capacidade de realizar ações de depredação pelo prazer de depredar. É tudo muito selvagem – muitas crianças, muitas mulheres. Devemos nos sentir distanciados diante da morte de outra pessoa, não importa qual seja sua idade ou sexo, mas não devemos perder a capacidade de indignação ou de compaixão ante o desaparecimento forçado de uma pessoa.

Qual é a melhor cura para as famílias das vítimas de um massacre como esse?

O que procuramos é conhecer a verdade, preservar a memória para que as famílias possam recuperar os corpos de seus entes queridos, para que cheguem a uma paz interior com sua dor. Em Putis, por exemplo, o maior impacto é causado pelo fato de ser um local tão remoto, de densidade populacional tão baixa. Lembra a Escócia, só falta o lago e o monstro. É uma região pobre, na qual as pessoas sobreviviam da venda de gado.

Passados 24 anos, de que maneira se poderia reparar os danos causados pelo Estado?

O principal seria garantir a essas pessoas a condição de cidadãos, e não simplesmente lhes dar um cheque. É preciso incorporá-las às cadeias de produção. As pessoas precisam deixar de vestir farrapos e passar a poder comprar roupas e construir uma casa que as proteja do frio. Não deveriam depender da caridade provida por Lima.

Como restaurar a dignidade dessas pessoas depois do massacre e do esquecimento?

Eles sobreviveram a uma série de humilhações. O Putis do Peru representa um outro Peru, um outro lugar. Restaurar a dignidade deles é um dever, e decerto há quem me diga que sou um sonhador, estou pedindo demais, que isso é impossível, é um processo longo. O problema é que já se passaram 24 anos, e eles continuam agora tão miseráveis quanto eram então; o problema, assim, é uma dívida interna que arrastamos há anos e, se multiplicarmos essa dívida pelo número de famílias de 15 mil ou mais desaparecidos, estamos falando de muita gente.

O objetivo fundamental do Estado peruano será o de restaurar a cidadania de todos os invisíveis que vivem neste outro Peru, já que Putis é só mais um caso de invisibilidade entre tantos outros… Essa tarefa de restaurar a cidadania é um processo de todos, dos meios de comunicação, não apenas do Estado, e tenho, sim, a ilusão de que isso deva ser assim, de conseguirmos ir adiante e acabar com os invisíveis deixados pela guerra.

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RETIRADO DE: http://luishipolito.wordpress.com/2008/09/02/o-horror-de-putis/

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